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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Metamorfoses da cidade medieval. A coexistência entre a comunidade judaica e a catedral de Viseu[1]

Anísio Miguel de Sousa Saraiva
Centro de História da Sociedade e da Cultura - UC;
Centro de Estudos de História Religiosa – UCPanisio@sapo.pt


No início da segunda metade de Duzentos, Portugal terminava a sua participação no processo de Reconquista do território peninsular, cumprindo aquele que fora um dos seus principais desígnios durante mais de século e meio de história, desde o tempo em que apenas constituía um pequeno condado subordinado ao reino de Leão[2]. Com efeito, depois de alcançar a independência política, ratificada por bula papal de Alexandre III, em 1179, um novo passo seria dado setenta anos depois pelo jovem reino português, ao conquistar-se definitivamente o território do Algarve, em 1249. Este acontecimento, que constituiu um importante sucesso militar face ao domínio muçulmano da Península Ibérica, permitiu ao rei D. Afonso III definir os contornos políticos de Portugal, aproximando-os dos limites daquela que veio a ser a sua fronteira definitiva, ao mesmo tempo que possibilitou a este monarca cimentar o equilíbrio político e socio-económico do reino, através de um poder régio actuante e centralizador e de uma geografia urbana dinâmica, embora heterogénea[3].





Fig. 01 – Rede urbana portuguesa, século XIII © Anísio M. S. Saraiva (2009).





Esta matização do mundo citadino português de meados do século XIII resultava, em grande medida, da existência de um eixo urbano litorâneo, paralelo à costa atlântica, formado por núcleos urbanos como Braga, Guimarães, Porto, Coimbra, Santarém e Lisboa, que no seu conjunto se contrapunha a um vasto elenco de localidades de menor expressão populacional no interior do país, entre as quais se assinalavam Bragança, Chaves, Lamego, Viseu, Guarda, Estremoz, Moura, Beja, e ainda Faro e Silves, estas duas situadas na costa sul do Algarve recém-conquistado[4]. Não obstante as assimetrias entre o litoral e o interior e a forte matriz rural das cidades e vilas medievais portuguesas, estas constituíam espaços dinâmicos fortemente credores das concepções urbanísticas romanas e muçulmanas[5], que vieram a conhecer nesta fase pós-Reconquista importantes alterações morfológicas decorrentes, entre vários aspectos, do aumento da população e do consequente alargamento da malha urbana para os bairros limítrofes, então chamados de arrabaldes[6]. Estas novas áreas, normalmente localizadas em zonas mais baixas e exteriores às cinturas amuralhadas, congregavam uma parte significativa da vida citadina, formando espaços por excelência de concentração da actividade artesanal e mercantil, com características físicas, funcionais, sociais e confessionais próprias, patentes no arruamento dos ofícios, de acordo com as suas especificidades, e na constituição de ruas ou bairros afectos a um qualquer grupo étnico ou religioso minoritário[7].








Fig. 02 – Pormenor do Livro das Fortalezas de Duarte de Armas, séc. XVI.


Alguns destes núcleos, considerados marginais na organização sócio-espacial urbana, de que eram os principais exemplos as mancebias, as mourarias e as judiarias, constituíam elos apartados da restante rede habitacional, o que contribuía de forma inequívoca para a diversificação topográfica das nossas cidades[8]. As mourarias, situadas normalmente em espaços degradados e afastados das vias de circulação, circunscreviam-se sobretudo às localidades do sul, como Santarém, Lisboa, Setúbal, Elvas, Évora, Moura, Beja e Silves[9]; ao contrário das judiarias, que se localizavam nas imediações, senão mesmo em áreas mais favorecidas do ponto de vista da circulação e do comércio, e se distribuíam um pouco por todo o reino, embora a sua concentração fosse mais significativa no interior da comarca da Beira e nas localidades fronteiriças do norte e do centro do país[10].


Entre as múltiplas características que o mundo urbano medieval português nos apresenta, mormente a partir do século XIII, importa acima de tudo destacar este carácter heterogéneo e multi-confessional do seu espaço[11], partilhado por cristãos, muçulmanos e judeus, revelador de um sistema vivencial de coexistência inicialmente moldado por um sentimento de tolerância operado pela maioria cristã, que, ao longo do tempo, foi dando lugar a mecanismos cada vez mais fortes de segregação, especialmente direccionados para a minoria judaica[12]. Na verdade, a população moura, embora presente em pontos específicos, conheceu um importante decréscimo no território português durante os séculos XIII a XV[13]; uma tendência inversa à verificada entre a população judia, cujo número aumentou de modo significativo desde as últimas décadas de Trezentos até finais de Quatrocentos, mais concretamente até ao decreto régio de

D. Manuel I de 1496, que obrigou judeus e mouros a optarem pela conversão ou pela expulsão do reino[14]. A comunidade hebraica, já de si notada pelo estigma do credo religioso e distinguida pela ampla distribuição territorial e expressão numérica do seu povo, bem como pelo peso que exercia nas actividades económicas locais, foi desde cedo o principal alvo da legislação normativa civil e eclesiástica, atenta sobremaneira em regulamentar a convivência com a maioria cristã e, em consequência, o modo como o espaço urbano era partilhado e ocupado pela minoria judaica. Essa realidade reflectiu-se no perfil social e morfológico de muitas das nossas cidades e vilas, sobretudo a partir dos finais do século XIV, altura em que a regulamentação segregacionista anti-semita se acentuou particularmente[15].


Mas se os contornos deste quadro urbano multi-étnico, com especial relevo no que diz respeito à presença judaica, são conhecidos com algum pormenor para cidades como Braga, Porto, Coimbra, Leiria, Guarda, Lisboa ou Évora[16], o mesmo não podíamos dizer em relação a Viseu, onde só muito recentemente a história da presença semita despertou de um modo mais amplo a atenção dos investigadores[17]. O aprofundamento concreto desta temática assume particular interesse pelo facto de Viseu ter constituído, desde sempre, uma importante referência estratégica na região centro de Portugal, em resultado da sua condição de sede de bispado e de pólo de atracção do fluxo comercial que cruzava a cidade, ligando os portos e os núcleos urbanos do litoral ao interior do país e à fronteira com Castela. Este seu estatuto de centro administrativo, eclesiástico e comercial, reforçado por boas infraestruturas viárias e fluviais, actuou como factor de desenvolvimento e de fixação de gente, nomeadamente homens ligados ao trato da mercancia, entre os quais se destaca a elite abastada dos mercadores e, claro está, os judeus. Com efeito, remontam ao ano de 1284 os primeiros testemunhos da presença hebraica em Viseu[18], cuja comuna se desenvolveu e prosperou sobretudo a partir dos inícios do século XV, no preciso momento em que, por um lado, o país recebia um numeroso contingente judaico oriundo de Castela e, por outro, a cidade dava início a um amplo e exigente processo de reconstrução do seu tecido urbano, após os saques e as destruições que resultaram da guerra travada durante décadas com o reino vizinho[19].








Fig. 03 – Viseu, vista da cidade.


A história da comuna judaica viseense inicia-se, portanto, nos finais do século XIII e, tal como sucede com a esmagadora maioria das localidades portuguesas, o seu estudo depende exclusivamente das informações constantes nas fontes cristãs, uma vez que desta comunidade não chegaram quaisquer testemunhos escritos a respeito da sua constituição ou do seu funcionamento. A imagem que hoje podemos construir dos judeus de Viseu é, assim, limitada ao resultado de uma leitura realizada de fora para dentro, ou seja, a partir do exterior deste grupo e circunscrita aos registos que a maioria cristã deixou nos seus centros de produção documental. No caso particular de Viseu, a base para o estudo da comuna hebraica encontra-se na chancelaria régia, mormente no que diz respeito à centúria de Quatrocentos[20], e, sobretudo, no rico repositório informativo do cartório do cabido da Sé viseense, de onde provém a esmagadora maioria das fontes para a história da presença judaica na cidade, agora por nós elencada e que compreende uma cronologia que se estende dos finais do século XIII até aos inícios do século XVI[21]. É especialmente através dos documentos produzidos ou recolhidos pelo cabido da catedral que se torna possível perscrutar as características e as linhas de inserção da minoria hebraica, numa leitura que se entrecruza, inevitavelmente, com a vida económica desta instituição eclesiástica, a mais importante de Viseu e de toda a região da Beira. A Sé, na condição de detentora de grande parte da propriedade urbana e peri-urbana da cidade, funcionou como um dos principais interlocutores no relacionamento entre judeus e cristãos, e exerceu uma forte influência nos mecanismos de organização sócio-espacial daquela minoria, o que desde logo se pode compreender se tivermos em conta o facto do cabido ser o proprietário de muitas das casas e dos bens habitados e emprazados por judeus[22].











Fig. 04 – Sé de Viseu, fachada © DGEMN





Cientes desta estreita ligação estabelecida entre o cabido da catedral e a comuna, examinemos então com mais pormenor as fontes e analisemos o que elas nos têm a dizer.


Situa-se em pleno reinado dionisino e a poucos anos do final do século XIII, mais concretamente em 1284, a primeira referência a um judeu habitante de Viseu,








Fig. 05 – Mais antiga referência documental a um judeu habitante em Viseu, 1284 (Janeiro) © DGARQ / ADVIS (Pergaminhos, m. 26, n. 16).


de nome Abraão e antigo proprietário de casas no Soar[23], que em 1293 foi indiciado pela justiça do rei, acusado de cobrar mais do dobro do montante de um empréstimo que concedera a um cristão da cidade[24]. Abraão residia com sua mulher Donti Dona numas casas em Cimo de Vila, na entrada sul do arrabalde de Viseu[25], junto das quais o casal possuía uma outra habitação com sobrado, que optou por alienar a um cónego da Sé, em Março de 1305[26].









Fig. 06 – Locais de fixação dos primeiros judeus de Viseu, sécs. XIII-XIV © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Como testemunha do contrato de compra e venda deste imóvel aparece um outro judeu, chamado Bento, que, por certo, e juntamente com a família de Abraão, terá convivido com Abricio, também membro da comunidade judaica e morador, pelo ano de 1303, junto ao terreiro da ermida de S. Domingos[27]. Mostram-nos estas referências, apesar de esparsas, alguns dos nomes dos primeiros hebreus de Viseu que, na transição do século XIII para o XIV, se fixaram no arrabalde da cidade, mais concretamente junto a Cimo de Vila e a S. Domingos, habitando um espaço urbano também ocupado pela população cristã e situado numa zona privilegiada de acesso ao eixo viário que fazia a ligação a sul, em direcção a Coimbra[28]. Infelizmente, nada mais se conhece desta primeira comunidade hebraica, tão pouco o documento régio que eventualmente terá sancionado a sua formação[29]. Os registos documentais do século XIV mostram-se parcos em informações sobre este grupo, revelando-nos apenas sinais de aproximação à maioria religiosa, de que são exemplos o caso de um judeu convertido ao cristianismo[30] e alguns indícios de agitação entre os cristãos e esta minoria semita, ocorrida durante o reinado de D. Afonso IV. Referimo-nos a queixas que os oficiais do concelho fizeram chegar ao monarca reclamando da conduta do corregedor quando estanciava em Viseu, por frequentemente tomar para si e para a aposentadoria dos seus homens roupas e camas aos vizinhos cristãos, em vez de o fazer aos vizinhos judeus, como, aliás, mandava o costume antigo da cidade[31].











Fig. 07 – Localização da Judiaria de Viseu, segunda metade séc. XIV © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Se estes primeiros dados apontam para a presença judaica no arrabalde citadino, pelos inícios do reinado de D. Pedro I (1357-1367) essa tendência de fixação mostra-se ter invertido, em favor da centralidade imposta pela Praça, na confluência da qual se situava a Rua da Triparia, que ligava aquele largo à não menos central e animada Rua das Tendas[32], onde, pouco antes de 1359, se regista a morada de um judeu chamado Jacob[33]. De facto, este dado leva-nos a suspeitar que, pelo começo da segunda metade de Trezentos, o bairro dos judeus já tivesse abandonado o arrabalde deslocando-se para este núcleo estratégico do centro urbano[34]. Prova disso surge anos mais tarde, em 1379, ao registarmos a primeira referência documental à sinagoga de Viseu, localizada nas imediações da Praça e da Triparia, mais precisamente numa das quelhas que partiam da rua das Tendas[35], por certo não muito afastada da Rua da Judiaria, documentada também pela primeira vez, em 1386[36]. Estas duas importantes referências permitem-nos, assim, inferir que este novo pólo de reunião e da vida da comuna judaica já se encontrava perfeitamente definido e organizado nesta zona privilegiada da cidade, entre os últimos anos do reinado de D. Fernando (1367-1383) e o princípio da governação de D. João I (1385-1433)[37]. O que, aliás, vem ao encontro das determinações das cortes de Elvas realizadas por D. Pedro I em 1361, que impuseram às comunidades semitas, entre um vasto conjunto de obrigações segregacionistas, o dever de se organizarem em judiarias, constituindo assim uma identidade espacial própria, definida em torno do seu centro ordenador formado pela sinagoga[38]. Se a isto ainda levarmos em conta que a construção deste templo, símbolo da vida espiritual e religiosa da comunidade, pressupunha a autorização do rei[39], fácil será concluir que a deslocação da comuna de Viseu para esta área da cidade e a consequente formação de uma nova judiaria terá sido um processo intencional, que mereceu o devido consentimento por parte da Coroa.


Deste modo ter-se-á concretizado mais um capítulo da história social e urbana de Viseu medieval que decorreu num período muito particular, profundamente marcado pela crise demográfica e cerealífera, agravado pelas sucessivas reincidências do trágico surto da Peste Negra, a que se juntaram, durante o reinado fernandino, três guerras com Castela, além da consequente crise dinástica portuguesa, dirimida durante a Crise de 1383-85, e do prolongamento das hostilidades com o reino vizinho até aos inícios do século XV. Foi sem dúvida um período de forte instabilidade e conflito, que se reflectiu na destruição e no despovoamento de Viseu, tragicamente atingida pelos saques e incêndios perpetrados pelas forças castelhanas em 1372, em 1385 e em 1396[40].


O restabelecimento da paz, nos alvores de Quatrocentos, tornou possível que a cidade se lançasse à ambiciosa tarefa do seu repovoamento e da sua reconstrução, carenciada de gente e de investimento capaz de a reerguer e de restabelecer o seu dinamismo económico e social. E aqui tudo leva a crer terem os judeus desempenhado um papel decisivo, pois muitos terão sido aqueles que vieram habitar a urbe viseense, provavelmente vindos de outras aldeias e vilas beirãs ou da vizinha Castela, escapando assim ao movimento antijudaico que há décadas grassava neste reino[41]. Disso mesmo nos dão conta os registos documentais quatrocentistas, que atestam um aumento exponencial do número de judeus em Viseu, bem como o empenho do cabido da Sé em reactivar a gestão da sua base patrimonial, através de uma firme política de emprazamentos de casas e pardieiros, dispersos um pouco por toda a cidade, procurando, em grande medida, reconstruir os seus imóveis e dinamizar a empobrecida economia capitular e urbana. O bairro judaico de Viseu fazia parte dessa rede imobiliária, razão por que encontramos, nestes primeiros anos do século XV, o cabido a emprazar a judeus umas casas na rua que dava acesso à sinagoga[42], ou a receber em doação um pardieiro na Judiaria, cuja localização as fontes passam a situar, com mais pormenor, nas imediações da rua das Tendas[43], a par da torre dos sinos da Sé[44] (no espaço que hoje corresponde à Rua da Senhora da Boa Morte).








Fig. 08 – Rua da Judiaria (actual Rua da Senhora da Boa Morte) © Anísio M. S. Saraiva (2009).





A proximidade espacial entre a catedral e a judiaria e os vínculos de natureza económica estabelecidos entre cristãos e judeus afiguram-se por demais evidentes. A Viseu de Quatrocentos ressurgia assim como um espaço dinâmico e multi-étnico, ao mesmo tempo que se reerguia das ruínas deixadas pela guerra e prosseguia a reorganização da sua malha urbana em função dos interesses de quem detinha a propriedade. Um dos episódios mais significativos deste processo reformador ocorreu logo entre 1415 e 1418, com a deslocalização da judiaria para uma zona contígua, igualmente bem situada, entre a Praça e a Rua das Tendas, mas mais afastada do perímetro da Sé (e que hoje corresponde à Rua da Senhora da Piedade)[45]. A razão desta nova mudança talvez a encontremos no crescimento da comunidade judia e na necessidade desta se arruar num espaço de maiores dimensões. Ao que também podemos acrescentar as relações de poder estabelecidas entre uma comuna mais numerosa e influente e uma maioria cristã também interessada em com ela coexistir, porque empenhada em ter o seu contributo na reconstrução da economia da cidade.











Fig. 09 – Localização da Judiaria Nova de Viseu, inícios séc. XV © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Na verdade, se em 1415 os cónegos recebiam um pardieiro na rua da Judiaria, identificada junto à Torre dos Sinos[46], três anos depois, em 1418, o cabido emprazava a um clérigo uma casa nessa mesma rua, mas desta vez com a indicação de aí ter sido o antigo espaço de morada dos judeus[47]. Motivo pelo qual a partir desta data passou a ser identificado por rua da Judiaria Velha[48], em oposição à nova que então se organizava e edificava, em grande medida em terrenos de propriedade da Sé, e para onde se transferiu a sinagoga, agora também aí referenciada[49]. Só assim se explica que muitas das casas desse espaço, agora afecto à nova judiaria de Viseu, fossem exploradas e alvo da atenção do cabido da Sé, naturalmente atraído pela disponibilidade económica dos seus ocupantes e pela consequente perspectiva de obter um bom rendimento nas rendas a cobrar[50]. Este interesse patrimonial dos cónegos no novo bairro judaico, também conhecido noutras cidades episcopais, como Braga, Lamego e Évora, não impediu que alguns hebreus mais abonados tivessem acesso à propriedade, comprando e vendendo as suas casas de habitação, como aconteceu com Isaac Franco ou com Samuel Navarro[51].











Fig. 10 – Rua da Judiaria Nova (actual Rua da Senhora da Piedade) © Anísio M. S. Saraiva (2009).


No entanto, importa sublinhar que a mudança da judiaria, da rua contígua à Torre dos Sinos para este novo espaço, terá sido um processo gradual, caracterizado pela progressiva ocupação por cristãos das casas até aí ocupadas por judeus[52], enquanto alguns destes ainda aí permaneceram durante mais alguns anos. Lembremos os exemplos do ourives Mordafay ou de Jacob Catarribas, que os documentos do cabido referenciam, entre 1428 e 1439, como moradores na Judiaria Velha, junto das escadas traseiras da catedral e da Torre dos Sinos (depois chamada Torre do Relógio, por entretanto ter recebido esse mecanismo)[53]. Mas não só aqui registamos a morada de judeus; apesar de congregada num novo local a população hebraica espalhou-se pontualmente por zonas cristãs da cidade[54], seja nas movimentadas e comerciais Rua das Tendas[55] e Rua da Triparia[56], aliás próximas da judiaria[57], seja nas mais afastadas Rua da Vela de S. Domingos[58] ou na Rua das Quintãs[59], onde, inclusive, existiam casas de propriedade da comuna[60].








Fig. 11 – Localização de habitações judaicas, séc. XV © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Pelas informações disponíveis percebemos estar perante uma comunidade judia numerosa e activa, dedicada a diferentes actividades económicas que animavam a cidade, como se depreende da variedade de ofícios mecânicos a que muitos dos seus membros se dedicavam, com particular interesse nas actividades de ferreiro[61], gibiteiro[62], ourives[63], sapateiro[64], tintureiro[65] e tecelão[66], em consentâneo com a não menos importante ligação ao sector agrícola, principalmente na exploração de vinhas[67], lagares e alguns olivais, também estes de propriedade da catedral e situados na área peri-urbana da cidade, sobretudo em Jugueiros[68], mas também na Arroteia[69], em Ranhados[70], na Mouta[71], em Sás[72], na Alagoa[73] e junto do rio Pavia[74].





Fig. 12 – Rei D. Duarte © Anísio M. S. Saraiva (2006).


Neste entrecruzar de espaços habitados e no bulício dos afazeres dos mesteres e dos trabalhos do campo, executados por cristãos e judeus, encontramos a génese do pulsar da nova cidade em que se tornou a Viseu de Quatrocentos. Porém, o quadro de coexistência pacífica que terá caracterizado o relacionamento destes dois grupos, assente na tolerância da maioria face à minoria, acabou por ganhar outros contornos ao longo do século XV como consequência do aumento da pressão segregacionista imposta pela política antijudaica da época[75]. Na verdade, se houve momentos em que a comuna de Viseu obteve a protecção e o patrocínio da Coroa, como aquele em que recebeu a confirmação dos seus privilégios, foros, liberdades e costumes, outorgada pelo rei D. Duarte, em 1433[76], outros houve em que foi o alvo das queixas da maioria cristã interessada agora em reforçar a secundarização da minoria judaica no quadro sócio-económico da cidade. A reclamação mais forte foi apresentada nas cortes realizadas em Évora, em 1444. Queria o concelho de Viseu aproveitar o facto de a cidade começar finalmente a ser amuralhada para solicitar ao rei a transferência da judiaria para um lugar mais afastado dentro do perímetro do muro, de forma a evitar o grande inconveniente de ter o bairro judaico em pleno centro urbano[77]. O infante regente D. Pedro concordou com o pedido, mas só quando a cidade estivesse efectivamente toda murada, o que ainda estava longe de ser uma realidade, razão por que a mudança da judiaria nunca se chegou a efectivar[78].









Fig. 13 – Antiga Praça de Viseu (actual Praça D. Duarte) © DGEMN


Anos mais tarde, em 1460, o concelho voltaria a reclamar em cortes, de novo reunidas em Évora, pedindo para que as vendas feitas por cristãos a judeus se realizassem primeiro na Praça da cidade e não na Judiaria, porque, em contrário, alegavam que as mercadorias quando chegavam ao mercado, depois de passarem pela rua dos judeus, já iam “çujas e dampnadas”[79]. Novos sinais de crispação e antagonismo foram dados oito anos depois, em 1468, desta vez pelos procuradores de Viseu às cortes de Santarém. Queixavam-se agora de haver judeus a habitar fora da Judiaria e do facto das casas deste bairro terem portas e janelas que tanto davam serventia para a própria Judiaria como para as casas de cristãos, resultando daí grande prejuízo e dano à cidade. Por essa razão solicitaram ao monarca que ordenasse aos judeus o encerramento de todas as portas e janelas que confrontassem com propriedade cristã, pedido a que o rei D. Afonso V prontamente anuiu[80]. O bairro judaico de Viseu ganharia assim a sua definitiva configuração, de espaço reservado, vedado aos olhares da cidade cristã, ao mesmo tempo que não permitia aos judeus a livre vizinhança com os demais elementos da maioria religiosa. À imagem do isolamento das casas judaicas juntava-se a do encerramento da rua da Judiaria, atestado desde 1455, através da colocação de portas em cada uma das suas extremidades, uma delas, aliás, situada na esquina da Rua da Triparia, junto a uma travessa que dava passagem para a Sé[81].








Fig. 14 – Rua da Judiaria Nova (actual Rua da Senhora da Piedade) © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Os tempos anunciavam assim o eminente virar de página na já longa história de coexistência entre cristãos e judeus. O fim da convivência étnica em Portugal precipitava-se em resultado da conjuntura peninsular. O assalto sangrento à Judiaria Grande de Lisboa, ocorrido em Dezembro de 1449[82], pré-anunciou os ecos anti-semitas que mais tarde chegaram de Espanha, com a expulsão dos judeus da Andaluzia, a implantação da Inquisição em Castela e a consequente expulsão dos judeus, em 1492, facto que provocou sérias repercussões no equilíbrio sócio-político do nosso país[83]. Numerosos contingentes de judeus procuraram abrigo no reino português e colocaram o rei D. Manuel I perante a inevitabilidade de seguir a corrente antijudaica espanhola, mormente quando confrontado com uma imposição político-matrimonial que o levou a publicar, em 1496, o decreto da expulsão dos judeus que não aceitassem a conversão[84]. Desde esse momento muitos foram aqueles que abandonaram o reino e muitos foram os que se subjugaram à conversão ao catolicismo.


Em Viseu cedo estas mudanças ganhariam rosto, impondo transformações na topografia da cidade e nos elos de sociabilidade nela estabelecidos, durante os dois séculos de história da presença semita. A partir de 1498, a até então Rua da Judiaria abandona esse nome, passando a chamar-se Rua Nova, tendo muitos dos seus antigos moradores sido expulsos ou alvo de conversões forçadas[85]. A lembrar estes novos tempos da perseguição e da diáspora judaica ficou-nos o elucidativo testemunho de um emprazamento realizado pelo cabido da Sé, em Novembro de 1499. Nesse contrato os cónegos emprazaram a Diogo Henriques umas casas na Rua Nova que antes fora Judiaria, nas quais tinha vivido o seu pai, o judeu Josepe Rodriga, casas essas que confrontavam com outras habitações em que agora vivia Fernão Lopes, que em tempos se chamou Salomão Adida, e com casas de Henrique Lopes, que antes tivera o nome de Mosé Adida (cf. Fig. 15)[86].





Fig. 15 – Emprazamento de umas casas na Rua Nova «que foy Judaria», a Diogo Henriques, filho de judeus, 1499 (13 de Novembro) © DGARQ / ADVIS (Pergaminhos, m. 33, n. 26).






A alteração toponímica e onomástica bem patente no teor deste contrato converte-se em memória viva da profunda transformação por que passou a ocupação humana e territorial das nossas cidades, vilas e aldeias nestes finais de Quatrocentos. Daqui em diante, o rumo da sua história haveria de ser, irreversivelmente, outro.





Conclusão


Durante a Idade Média Viseu pontuou entre as demais cidades episcopais portuguesas como um espaço urbano de média dimensão, caracterizado pelo seu dinamismo económico e social, em muito potenciado pela sua localização privilegiada e pelo seu estatuto de centro eclesiástico, político e comercial. Ao carácter dinâmico, a cidade acrescentou o perfil multi-étnico da sua população, composta por cristãos mas também por judeus, de cuja presença em Viseu os primeiros testemunhos datam dos finais do século XIII, tendo como ponto de fixação o arrabalde citadino, nas imediações do principal eixo viário que ligava a cidade ao sul. Neste espaço a comunidade judaica foi-se enraizando e estabelecendo vínculos de natureza económica com o cabido da Sé, na qualidade de principal detentor da propriedade urbana da cidade, convertendo-se este num importante interlocutor no relacionamento entre a maioria cristã e a minoria judia durante todo o período medieval. A localização da comuna judaica na topografia da cidade viria a sofrer uma primeira e importante alteração nos inícios da segunda metade do século XIV, ao deslocar-se do arrabalde para o centro da urbe, sempre junto das principais vias de circulação mas agora mais perto do centro religioso, político e comercial citadino, delimitado pela Praça, pela catedral e pela Rua das Tendas. Iniciado o século XV e passadas as três décadas de guerras e destruições que deixaram a cidade praticamente em ruínas, Viseu lançou mãos a um intenso processo de reconstrução e de repovoamento do seu tecido urbano, no qual a comuna judaica também participou de forma activa. Tanto assim foi que, no seguimento deste movimento reconstrutivo impulsionado sobremaneira pelo cabido da catedral, a judiaria mudou pela segunda vez de localização, desta feita para uma rua maior, contígua à anterior e igualmente bem situada, entre a Praça e a Rua das Tendas, apenas um pouco mais afastada do perímetro da Sé e com maior possibilidade de expansão. Passou a ser neste espaço fechado em torno de si próprio que viveu a grande maioria da comunidade judaica viseense durante a centúria de Quatrocentos, até o decreto régio de 1496 sentenciar a sua expulsão. Aqui, na Judiaria Nova, a comuna viseense atingiu a sua maior expressão enquanto grupo minoritário inicialmente tolerado pela maioria cristã, mas que ao longo do século XV viu ser transformado esse padrão de coexistência e até de cooperação entre as duas comunidades num relacionamento declaradamente segregacionista, o que de todo não impediu a comunidade judaica de participar activamente na revitalização da economia e de cooperar com o cabido da Sé no processo de reconstrução e de reanimação do tecido urbano de Viseu ao longo do século XV.













Fontes manuscritas:


Arquivo Distrital de Viseu (ADVIS)


Pergaminhos, m. 00 (n. 4, 44, 58, 161, 185, 328, 337); m. 09 (n. 12, 14); m. 15 (n. 15, 46); m. 16 (n. 39); m. 18 (n. 09, 72, 76, 109); m. 19 (n. 19 verso, 79); m. 20 (n. 91); m. 21 (n. 74); m. 22 (n. 04, 20); m. 23 (n. 49, 67); m. 25 (n. 18b); m. 26 (n. 16); m. 28 (n. 55); m. 30 (n. 10); m. 32 (n. 22, 37); m. 33 (n. 07, 08, 26, 44); m. 34 (n. 06, 44); m. 35 (n. 17, 26, 27, 45b); m. 36 (n. 50); m. 37 (n. 04); m. 38 (n. 36a, 50); m. 39 (n. 06, 12, 15); m. 40 (n. 31); m. 41 (n. 11, 32); m. 42 (n. 03); m. 43 (n. 06, 24, 32, 33, 35, 46); m. 44 (n. 14, 18, 24, 31); m. 46 (n. 14, 35); m. 47 (n. 18, 19, 29, 35); m. 48 (n. 07, 36, 47, 48, 50); m. 49 (n. 11, 12, 15, 17, 63); m. 50 (n. 31, 81).





Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT)


Leitura Nova, Beira, Liv. 2.


Sé de Viseu, Documentos Régios, m. 1 (n. 23).








Fontes impressas:


Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV. Org. A. H. de Oliveira Marques, vol. 2. Lisboa: INIC-CEH/UNL, 1990.


Chancelarias Portuguesas: D. Duarte. Vol. 1, Tomo 1. Org. João José Alves Dias. Lisboa: CEH-UNL, 1998.


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Bibliografia:


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NOTAS

[1] Este artigo tem como base uma comunicação subordinada ao tema Ebrei e cristiani. Coesistenza e cooperazione tra la comunitá giudaica di Viseu e il capitolo della cattedrale nel tardo medioevo, por nós apresentada no IVe Congrès Européen d’Études Médiévales “Coesistenza e Cooperazione nel Medioevo“, realizado em Palermo (Itália), de 23 a 27 de Junho de 2009, e organizado pela Officina di Studi Medievali della Università degli Studi di Palermo e pela Fédération Internationale d'Instituts d'Études Médiévales.


[2] Acerca do período condal cf. MARQUES, A. H. de – A constituição de um condado. In Nova História de Portugal. Dir. Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques. Vol. 3: Portugal em definição de fronteiras (1096-1325). Coord. Maria Helena Coelho e Armando Carvalho Homem. Lisboa: Ed. Presença, 1996, p. 11-23; e MATTOSO, José – Dois séculos de vicissitudes políticas. In História de Portugal. Dir. José Mattoso. Vol. 2: A monarquia feudal (1096-1480). Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 1992, p. 23-64.


[3] Cf. VENTURA, Leontina – D. Afonso III. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2006, p. 88-116; TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal. Coimbra: FLUC, 2009, p. 43-49.


[4] Cf. MATTOSO, José – Os concelhos. In História de Portugal. Vol. II: A monarquia feudal (1096-1480). Dir. José Mattoso. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 1992, p. 207-211. Sobre as características topográficas de algumas destas cidades e vilas, cf. TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 299-312, 337-359;ATLAS de cidades medievais portuguesas: séculos XII-XV. Vol. 1. Lisboa: INIC, 1990; e MARQUES, A. H. de Oliveira – O surto urbano, a moeda e os preços. In Nova História de Portugal. Dir. Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques. Vol. IV: Portugal na Crise dos Séculos XIV e XV. Lisboa: Presença, 1987, p. 187-190.


[5] Cf. TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 50-94; MARQUES, A. H. de Oliveira – Introdução à história da cidade medieval portuguesa. In Novos ensaios de história medieval portuguesa. Lisboa: Presença, 1988, p. 13-42; e SARAIVA, Anísio Miguel de Sousa – A inserção urbana das catedrais medievais portuguesas: o caso da catedral de Lamego. In Catedral y ciudad medieval en la Península Ibérica. Eds. Eduardo Carrero y Daniel Rico. Múrcia: Nausícaä, 2004, p. 243-245.


[6] Esta expansão urbana para os arrabaldes já se verificava antes do fim da Reconquista em cidades mais desenvolvidas como Coimbra, Santarém ou Lisboa, cf. GASPAR, Jorge – A cidade portuguesa na Idade Média: aspectos da estrutura física e desenvolvimento funcional. In La ciudad hispanica durante los siglos XIII al XVI. Actas do colóquio. Madrid: Universidad Complutense, 1982, p. 134-136.


[7] Cf. GASPAR, Jorge – A cidade portuguesa na Idade Média…, p. 134; e GONÇALVES, Iria – Para o estudo da área de influência do Porto nos fins do século XIV. In Um olhar sobre a cidade medieval. Cascais: Patrimonia, 1996, p. 139-152.


[8] Sobre as mancebias e a sua localização no espaço urbano ibérico, cf. BEIRANTE, Maria Ângela – As mancebias nas cidades medievais portuguesas. In O ar da cidade: ensaios de história medieval e moderna. Lisboa: Ed. Colibri, 2008, p. 7-24; MOLINA MOLINA, Ángel Luis – Mujeres públicas, mujeres secretas: la prostitución y su mundo (siglos XIII-XVII). Murcia: Editorial KR, 1998, p.77-97; idem – La prostitución en la Castilla bajomedieval. Clio & Crimen. 5 (2008) 138-150; e LÓPEZ BELTRÁN, María Teresa – La prostitución en el reino de Granada a finales de la Edad Media. Málaga: Centro de Ediciones de la Diputación, 2003.


[9] Além destas existiam outras mourarias em Leiria, Almada, Palmela, Alcácer do Sal, Avis, Estremoz, Tavira, Loulé e Faro, todas elas resultantes do avanço da Reconquista e da reorganização da população muçulmana nas cidades cristianizadas, cf. TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 665-686; GASPAR, Jorge – A cidade portuguesa na Idade Média…, p. 136-137; CHORÃO, J. – Islão e cristianismo: entre a tolerância e a guerra santa. In História Religiosa de Portugal. Vol. 1: Formação e Limites da Cristandade. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2000, p. 102-116; e GOMES, Saul – A mouraria de Leiria: problemas sobre a presença moura no centro do país. Estudos Orientais. 2 (1991) 155-177.


[10] Cf. TRINDADE, Luísa – Jewish communities in portuguese late medieval cities: space and identity. In Religion, ritual and mythology: aspects of identity formation in Europe. Pisa: University Press, 2006, p. 68-73; GASPAR, Jorge – A cidade portuguesa na Idade Média…, p. 136-138; GOMES, Saul – Grupos étnico-religiosos e estrangeiros…, p. 351-360; e TAVARES, Maria José Ferro – Pobres, minorias e marginais: localização no espaço urbano. In A Cidade. Jornadas inter e pluridisciplinares. Vol. 1. Lisboa: Universidade Aberta, 1993, p. 141-153.


[11] Como nos refere TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 619.


[12] Cf. TAVARES, Maria José Ferro – O difícil diálogo entre judaísmo e cristianismo.In História Religiosa de Portugal. Dir. Carlos Moreira Azevedo. Vol. 1: Formação e limites da cristandade. Coord. Ana Maria Jorge e Ana Maria Rodrigues. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2000, p. 53-54; ANTUNES, José – Acerca da liberdade de religião na Idade Média: mouros e judeus perante um problema teológico-canónico. Revista de História das Ideias. 11 (1989) 63-84; e IZQUIERDO BENITO, Ricardo – Los conflitos sócio-religiosos en las ciudades medievales castellanas. InLa conviencia en las ciudades medievales. Nájera. Encuentros Internacionales del Medievo 2007. Logroño: Instituto de Estudios Riojanos, 2008, p. 84-100.


[13] Cf. TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 672-674; e CHORÃO, J. – Islão e cristianismo…, p. 127.


[14] Um dos motivos para o aumento da comunidade judaica entre nós, logo nos finais do século XIV, prendeu-se com o movimento antijudaico então vivido em Castela e que originou um forte fluxo migratório para Portugal, que se acentuou particularmente nas últimas décadas do século XV, cf. MARQUES, A. H. de Oliveira – A base demográfica e tecnológica…, p. 36-39; e TRINDADE, Luísa – Jewish communities in portuguese late medieval cities…, p. 73; e idem – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 625-626.


[15] Cf. TAVARES, Maria José Ferro – O difícil diálogo entre judaísmo e cristianismo..., p. 54.


[16] Cf. MARQUES, José – As judiarias de Braga e de Guimarães no século XV. InXudeus e Conversos na Historia. Congreso Internacional, Ribadavia, 1991. Vol. 2. Santiago de Compostela: Editorial de la Historia, 1994, p. 351-363; DIAS, Geraldo Coelho – Presença de judeus no Porto: da Idade Média à Modernidade. In Os reinos ibéricos na Idade Média. Vol. 1. Porto: Livraria Civilização, 2003, p. 424-440; GOMES, Saul – A comunidade judaica de Coimbra medieval. Coimbra: INATEL, 2003; idem – Ser-se judeu na Coimbra medieval. In Minorias étnicas e religiosas em Portugal: história e actividade. Actas do Curso de Inverno. Coimbra: [s.n.], 2003, p. 61-82; idem – A comuna judaica de Leiria das origens à expulsão: introdução ao seu estudo histórico e documental. Lisboa: Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste», 2010; GOMES, Rita Costa – Um microcosmos citadino: a judiaria medieval da Guarda. In Guarda, história e cultura judaica. Guarda: Museu, 2000; TAVARES, Maria José Ferro – Os judeus na Beira Interior. In Guarda, história e cultura judaica. Guarda: Museu, 2000; VENTURA, Margarida Garcez – Contributo para uma leitura social do espaço na Lisboa quatrocentista: o debate sobre a localização das judiarias. Revista Portuguesa de História. 36-1 (2002/2003) 229-240; ANDRADE, Amélia Aguiar – O desaparecimento espacial das judiarias nos núcleos urbanos portugueses de finais da Idade Média: o caso de Lisboa. InEstudos de Homenagem ao Prof. Doutor José Marques. Vol. 1. Porto: Faculdade de Letras, 2006, p. 143-163; BALLESTEROS, C. – A judiaria e a sinagoga medieval de Évora. In Os judeus sefarditas entre Portugal, Espanha e Marrocos. Lisboa: Colibri, 2004, p. 191-218; e BEIRANTE, Maria Ângela – Évora na Idade Média. Lisboa: FCG/JNICT, 1995, p. 738-741.


[17] Remontam a finais da década de 70 e aos inícios de 80 do século XX os primeiros trabalhos de âmbito nacional publicados por TAVARES, Maria José Ferro –Os judeus em Portugal no século XIV. Lisboa: Guimarães Ed., 1979 e Os judeus em Portugal no século XV. 2 vols. Lisboa: UNL-INIC, 1982-1984, com relevantes informações sobre a presença judaica em Viseu, principalmente para a centúria de Quatrocentos. A partir dos finais da década de 90, novas incursões no âmbito da história da presença sefardita em Viseu foram levadas a cabo por MONTEIRO, Isabel – Os judeus na região de Viseu. Viseu: RTDL, 1997; A judiaria de Viseu.Monumentos. 13 (2000) 57-61; Viseu a identidade histórica: o próximo como o “outro”. VISEU.M. 1 (2008) 142-163; tendo esta temática sido recentemente relançada, com especial fôlego, graças ao patrocínio do Grupo de Missão do Museu Municipal de Viseu, coordenado pelo Professor Doutor Henrique Almeida, de quem partiu a iniciativa de realizar o I Colóquio da História e Cultura Judaica em Viseu (em Fevereiro de 2009).


[18] Cf. nota 23.


[19] Sobre a guerra travada com Castela durante o reinado fernandino, que se estendeu de 1369 a 1382, bem como as suas consequências na cidade de Viseu, cf. SARAIVA, Anísio Miguel de Sousa – A cidade de Viseu no rasto da guerra: dos conflitos fernandinos à paz definitiva com Castela. In A Guerra e a Sociedade na Idade Média. Actas das VI Jornadas Luso-Espanholas de Estudos Medievais (2008). Vol. 1. [Torres Novas]: SPEM, 2009, p. 323-358.


[20] Como nos mostram os trabalhos publicados por Maria José Ferro Tavares, cf. nota 17.


[21] O núcleo principal do cartório do cabido da Sé de Viseu encontra-se no Arquivo Distrital de Viseu, que se completa com os acervos de menor dimensão distribuídos pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) e pelo Arquivo do Museu de Grão Vasco (AMGV). Neste cartório capitular reunimos um total de 80 documentos que testemunham, directa ou indirectamente, a presença judaica em Viseu, 80% dos quais são referentes ao século XV e correspondem na sua maioria a contratos de emprazamento ou de escambo de propriedades do cabido. A esta documentação proveniente da Sé acresce a massa informativa reunida nas chancelarias régias e que não ultrapassa a meia centena de documentos, datados sobretudo do reinado de D. Afonso V.


[22] O papel determinante que o cabido de Viseu exerceu do ponto de vista patrimonial foi já objecto de um estudo preambular realizado por NERY, António de Seixas – O cabido de Viseu nos inícios da Idade Moderna, senhorio e rendas (1400-1500). Porto: FLUP, 1996.


[23] 1284 (Jan.) – Arquivo Distrital de Viseu (ADVIS), Pergaminhos, m. 26, n. 16.


[24] A queixa partiu de Mem Lourenço e da sua mulher que acusaram Abraão, judeu de Viseu, de lhes levar “gram peça”, ou seja, mais que o dobro da dívida que a ele haviam contraído. O rei determinou que, caso se provasse a acusação, o judeu fosse obrigado a devolver aos credores a quantia que havia levado a mais: 1293 (4 de Junho, Lisboa) ANTT – Sé de Viseu, Documentos Régios, m. 1, n. 23. O problema da usura foi motivo de intensa legislação desde o reinado de D. Afonso III, visando combater os empréstimos concedidos por judeus a juro imoderado, cf. TAVARES, Maria José Ferro – O difícil diálogo entre judaísmo e cristianismo..., p. 58; idem – Os judeus em Portugal no século XIV, p. 105-110.


[25] 1303 (24 de Agosto, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 28, n. 55.


[26] Foi acordado com o comprador, o cónego Martim Peres, a condição de poder ter serventia da sua nova casa através das habitações dos vendedores judeus seus vizinhos: 1305 (4 de Março, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 22, n. 04. Estas casas compradas pelo cónego são, dois anos depois, por si doadas a Clara Eanes, registando-se o facto do judeu Abraão e da sua mulher delas ainda serem vizinhos: 1307 (27 de Abril, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 22, n. 20.


[27] 1303 (17 de Maio, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 23, n. 49.


[28] Os dados agora apresentados refutam a afirmação de Isabel Monteiro de que os judeus terão ocupado inicialmente a zona extramuros do bairro da Regueira, cf. MONTEIRO, Isabel – A judiaria de Viseu. Monumentos. 13 (2000) 57-58, 60. A localização desta primeira comunidade hebraica viseense segue a tendência das demais judiarias nacionais, situadas nas imediações dos principais eixos de circulação urbana, cf. GOMES, Saul – Grupos étnico-religiosos e estrangeiros…, p. 348; e TAVARES, Maria José Ferro – Os judeus em Portugal no século XIV, p. 28.


[29] Competia ao rei conceder, através de uma carta de privilégios, autorização para a criação das comunas judaicas e regulamentar todos os seus usos e costumes, foros e privilégios, cf. TAVARES, Maria José Ferro – Os judeus em Portugal no século XIV, p. 19-20; GOMES, Saul – Grupos étnico-religiosos e estrangeiros…, p. 351.


[30] Trata-se de Martim Afonso «que foi judeu»: 1319 (31 de Março, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 25, n. 18b.


[31] Queixa atendida pelo rei que ordenou o respeito pelo costume de tomar roupa aos judeus e não aos cristãos da cidade: 1338 (21 de Maio, Coimbra)Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV. Org. A. H. de Oliveira Marques, vol. 2. Lisboa: INIC-CEH/UNL, 1990, p. 207-209, doc. 112. Nesta mesma carta de D. Afonso IV é-nos dado a saber que os arrabis da comuna de Viseu não têm jurisdição sobre os feitos crimes praticados pelos judeus, a qual pertencia aos juízes do concelho, cf. TAVARES, Maria José Ferro – Os judeus em Portugal no século XIV, p. 36, 68, 70 nota 80, 81.


[32] Sobre o conceito de “praça” e o seu papel como elemento urbano de maior significado na cidade medieval, evolução toponímica e o traçado de algumas das artérias urbanas de Viseu, cf. TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 705-719; RIBEIRO, Maria do Carmo Franco – Braga entre a época romana e a Idade Moderna: uma metodologia de análise para a leitura da evolução da paisagem urbana. Braga: Universidade do Minho, 2008; BEIRANTE, Maria Ângela – Espaços públicos nas cidades portuguesas medievais: Santarém e Évora. In O ar da cidade. Ensaios de História Medieval e Moderna. Lisboa: Ed. Colibri, 2008, p. 182-183; MOUTA, J. Henriques – Panorâmica e dinâmica de Viseu medieval. I: Toponímia. Beira Alta. 27-2 (1968) 281-300; e CASTILHO, Liliana Andrade – O centro histórico de Viseu. Beira Alta. 63-3/4 (2004) 330-336.


[33] 1359 (4 e 5 de Fevereiro, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 38, n. 36a.


[34] Em Coimbra, por exemplo, a tendência foi inversa à de Viseu, com a mutação da judiaria do centro para o arrabalde citadino, entre 1360-1380, cf. GOMES, Saul – A comunidade judaica de Coimbra medieval…, p. 16-22; idem – Ser-se judeu na Coimbra medieval…, p. 68-70.


[35] 1379 (1 de Fevereiro, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 18, n. 72 e m. 50, n. 31.


[36] 1386 (13 de Abril, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 18, n. 109. Tal como em Viseu, as judiarias de Guimarães, Barcelos, Vila Real, Tomar, Lagos e Miranda do Douro formavam-se em torno de uma única rua, cf. TRINDADE, Luísa – Jewish communities in portuguese late medieval cities…, p. 74.


[37] Em 1384 (6 de Setembro, Lisboa), D. João I doou ao seu escudeiro Álvaro Gonçalves Taborda os rendimentos que a Coroa auferia do serviço real pago pelos judeus de Viseu, o que mostra também a dimensão e a actividade da comuna judaica viseense por esse tempo, cf. Chancelarias Portuguesas. D. João I. Vol. 1, T. 1. Org. João José Alves Dias. Lisboa: CEH-UNL, 2004, p. 117-118, doc. 232.


[38] Cf. TRINDADE, Luísa – Jewish communities in portuguese late medieval cities…, p. 62, 65; TAVARES, Maria José Ferro – O difícil diálogo entre judaísmo e cristianismo..., p. 66. Ainda acerca do papel das sinagogas na organização das comunidades judaicas e das prerrogativas impostas aos judeus pelo rei D. Pedro I, cf. TAVARES, Maria José Ferro – Os judeus em Portugal no século XIV, p. 13, 38 e 74.


[39] Cf. TAVARES, Maria José Ferro – Os judeus em Portugal no século XIV, p. 39, 60.


[40] Sobre o contexto destas incursões castelhanas a Viseu, cf. SARAIVA, Anísio Miguel de Sousa – A cidade de Viseu no rasto da guerra…


[41] Este movimento persecutório iniciado em Toledo, na década de 50, culminou no pogrom de Sevilha de 1391, cf. MARQUES, A. H. de Oliveira – A base demográfica e tecnológica…, p. 36-37.


[42] O judeu David de Pam Corvo e a sua mulher Reyna emprazam ao cabido uma casa na rua que ia para a sinagoga: 1408 (19 de Junho, Viseu) ADVIS, Pergaminhos, m. 41, n. 11.


[43] 1406 (7 de Maio, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 48, n. 48.


[44] 1415 (3 de Julho, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 18, n. 76.


[45] Um processo análogo a este ocorrido em Viseu verificou-se em Braga, em 1466, com a transferência da Judiaria para uma zona contígua que passou a denominar-se de Judiaria Nova, cf. MARQUES, José – A contenda do cabido com os judeus de Braga, na segunda metade do século XV. Revista Altitude. 4 (1981) 29-32. Sobre a localização estratégica das judiarias na topografia das cidades portuguesas e a solução encontrada, por exemplo para Lisboa e Lamego, da construção de novas judiarias como forma de resposta à expansão das respectivas comunas, cf., TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 633-648; e idem – Jewish communities in portuguese late medieval cities…, p. 66, 68, 71; e GASPAR, Jorge – A cidade portuguesa na Idade Média…, p. 137-138.


[46] Cf. nota 44.


[47] 1418 (7 de Janeiro, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 36, n. 50.


[48] 1421 (4 de Setembro, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 48, n. 36; 1439 (16-19 de Outubro, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 34, n. 44; 1444 (17 de Abril, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 34, n. 06; 1461 (5 de Novembro, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 23, n. 67 e m. 47, n. 35; 1480 (12 de Fevereiro, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, n. 44; 1512 (19 de Janeiro, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 50, n. 81; 1527 (8 de Julho, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 18, n. 09.


[49] Em 1433 (7 de Agosto, Viseu), o cabido de Viseu emprazou ao judeu SalomãoAlentrez e a sua mulher Bemvinda, uma casa na Judiaria, na rua que ia para a sinagoga – ADVIS, Pergaminhos, m. 44, n. 18. E em 1453 (20 de Março, Viseu) emprazou ao judeu Abraão Catarribas de Celorico e a sua mulher Lediça, umas casas na judiaria diante da porta da sinagoga – ADVIS, Pergaminhos, m. 39, n. 15. Sobre a localização da sinagoga nesta nova judiaria, cf. ainda: 1480 (28 de Fevereiro e 7 de Março) ADVIS – Pergaminhos, m. 38, n. 50 e n. 337; 1487 (4 de Setembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 9, n. 14.


[50] Cf. os vários emprazamentos efectuados pelo cabido da Sé nesta nova Judiaria: 1420 (12 de Dezembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 43, n. 24; 1433 (7 de Agosto) ADVIS – Pergaminhos, m. 44, n. 18; 1438 (21 de Julho) ADVIS, Pergaminhos – m. 49, n. 12; 1439 (9 de Novembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 43, n. 35; 1440 (26 de Janeiro) ADVIS – Pergaminhos, m. 15, n. 46; 1453 (20 de Março) ADVIS – Pergaminhos, m. 39, n. 15; 1460 (13 de Novembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 49, n. 63; 1473 (31 de Dezembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 32, n. 22; 1479 (18 de Fevereiro) ADVIS – Pergaminhos, m. 43, n. 46; 1480 (28 de Fevereiro e 7 de Março) ADVIS – Pergaminhos, m. 38, n. 50 e m. 00, n. 337; 1481 (31 de Outubro) ADVIS – Pergaminhos, m. 47, n. 29; 1484 (7 de Janeiro) ADVIS – Pergaminhos, m. 39, n. 12; 1487 (26 de Maio e 4 de Setembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 44, n. 31 e m. 9, n. 14; 1489 (11 de Agosto) ADVIS – Pergaminhos, m. 42, n. 3. Na cidade episcopal de Lamego, a nova judiaria começou-se a formar em 1388 e também nela o cabido da cidade mostrou particular interesse em deter e explorar a propriedade, cf. SARAIVA, Anísio Miguel de Sousa – A inserção urbana das catedrais medievais portuguesas…, p. 261; vejam-se ainda os casos de Braga e Évora, cf. TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 651.


[51] Isaac Franco, morador em Trancoso, vendeu ao judeu Samuel Navarro e a sua mulher Aviziboa, umas casas na judiaria, por três mil reais brancos, em 1441 (8 de Dezembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 19, n. 79; casas estas doadas pela judiaAviziboa a seu filho Salomão Navarro em 1477 (15 de Abril) ADVIS – Pergaminhos, m. 19, n. 19 verso.


[52] Cf. nota 47.


[53] 1428 (20 de Outubro) ADVIS – Pergaminhos, m. 16, n. 39; 1432 (2 de Junho) ADVIS – Pergaminhos, m. 15, n. 15; 1432 (2 de Agosto) ADVIS – Pergaminhos, m. 44, n. 14 e m. 46, n. 35; 1433 (2 de Agosto) ADVIS – Pergaminhos, m. 9, n. 12; 1439 (16-19 de Outubro) ADVIS – Pergaminhos, m. 34, n. 44.


[54] Fenómeno comum a outras cidades e vilas portuguesas, cf. TRINDADE, Luísa –Urbanismo na composição de Portugal…, p. 622-623; e TAVARES, Maria José Ferro –Os judeus em Portugal no século XIV, p. 77-78.


[55] Onde os judeus Abraão Abiol e sua mulher Lidiça tinham emprazado do cabido um pardieiro ao qual renunciam em 1429 (5 de Junho) ADVIS – Pergaminhos, m. 49, n. 17.


[56] Onde habitava Jacob Mocate em 1440 (8 de Dezembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 33, n. 44.


[57] Em Braga a Judiaria Nova quatrocentista também se situava próxima da Rua da Triparia, cf. RIBEIRO, Maria do Carmo Franco – Braga entre a época romana e a Idade Moderna…, p. 424-428.


[58] Onde Salomão Mocatel tinha um pardieiro em 1439 (19 de Junho) ADVIS – Pergaminhos, m. 32, n. 37.


[59] Onde o judeu Junça Beiçudo e sua mulher Bemvinda emprazam um casa, da capela da Trindade, que já havia sido trazida pelos judeus Vivas sapateiro e sua mulher Eora Boa: 1446 (16 de Agosto) ADVIS – Pergaminhos, m. 30, n. 10; onde mestre Salomão empraza um casa do cabido da Sé em 1472 (12 de Agosto) ADVIS – Pergaminhos, m. 35, n. 17; e onde judeus possuem casas que confrontam com uma cavalariça, em 1474 (13 de Junho) ADVIS – Pergaminhos, m. 35, n. 26.


[60] Casas estas que confrontavam com outras onde habitava Isaac Caso ferreiro: 1475 (16 de Março) ADVIS – Pergaminhos, m. 49, n. 11.


[61] Jacob Carrilho, Judas Adida, Abraão Adida e Isaac Caso ferreiros: 1429 (16 de Março e 15 de Novembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 43, n. 6 e 33; 1460 (13 de Novembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 49, n. 63; 1475 (16 de Março) ADVIS – Pergaminhos, m. 49, n. 11.


[62] Judas Franco, Sissimem e Judas, gibiteiros: 1438 (21 de Julho) ADVIS – Pergaminhos, m. 49, n. 12; 1459 (29 de Março) ADVIS – Pergaminhos, m. 39, n. 6; 1474 (19 de Novembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 44, n. 24.


[63] Jacob Mocatem e Mordafay, ourives: 1420 (12 de Dezembro) e 1439 (16-19 de Outubro) ADVIS – Pergaminhos, m. 43, n. 24 e m. 34, n. 44.


[64] David e Vivas, sapateiros: 1440 (26 de Janeiro) e 1446 (9 de Fevereiro) ADVIS – Pergaminhos, m. 15, n. 46 e m. 30, n. 10.


[65] Mose Franco, tintureiro: 1443 (22 de Maio) ADVIS – Pergaminhos, m. 40, n. 31.


[66] Mais, tecelão: 1433 (7 de Agosto) e 1438 (20 de Outubro) ADVIS – Pergaminhos, m. 44, n. 18 e m. 48, n. 50.


[67] Tal era o peso que a cultura da vinha tinha na economia dos judeus de Viseu que existia um lugar junto da cidade chamado “vinhas dos judeus”: 1465 (4 de Dezembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 47, n. 19. Sobre a importância do cultivo da videira entre os judeus, cf. TAVARES, Maria José Ferro – Os judeus em Portugal no século XIV, p. 111-112.


[68] 1429 (16 de Março e 15 de Novembro), 1438 (20 de Outubro), 1444 (16 de Agosto), 1459 (29 de Março) e 1474 (19 de Novembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 43, n. 6 e 33; m. 48, n. 50; m. 48, n. 7; m. 39, n. 6; e m. 44, n. 24.


[69] 1406 (30 de Março) e 1421 (15 de Janeiro) ADVIS – Pergaminhos, m. 43, n. 32 e m. 35, n. 45b.


[70] 1410 (22 de Janeiro) ADVIS – Pergaminhos, m. 21, n. 74.


[71] 1432 (24 de Janeiro) ADVIS – Pergaminhos, m. 46, n. 14.


[72] 1443 (22 de Maio) ADVIS – Pergaminhos, m. 40, n. 31.


[73] 1452 (12 de Novembro) e 1484 (17 de Novembro) ADVIS – Pergaminhos, m. 49, n. 15 e m. 20, n. 91.


[74] 1420 (16 de Junho) e 1428 (15 de Maio) ADVIS – Pergaminhos, m. 48, n. 47 e m. 41, n. 32.


[75] A propósito do aumento do antijudaísmo no século XV português, cf. TAVARES, Maria José Ferro – O difícil diálogo entre judaísmo e cristianismo..., p. 66 e seguintes; e MORENO, Humberto Baquero – Movimentos sociais antijudaicos em Portugal no século XV. In Marginalidade e conflitos sociais em Portugal nos séculos XIV e XV. Estudos de História. Lisboa: Ed. Presença, 1985, p. 79-88.


[76] 1433 (26 de Dezembro, Almeirim) cf. Chancelarias Portuguesas: D. Duarte. Vol. 1, Tomo 1. Org. João José Alves Dias. Lisboa: CEH-UNL, 1998, p. 247, doc. 468.


[77] 1444 (14 de Fevereiro, Évora) ANTT – Chancelaria de D. Afonso V, Liv. 24, fl. 55v; este capítulo especial dado a Viseu nas cortes de Évora encontra-se publicado por COELHO, Maria Helena da Cruz – O concelho e senhorio de Viseu em Cortes. In Actas do congresso infante D. Henrique, Viseu e os Descobrimentos. Viseu: Câmara Municipal, 1995, p. 93 e 102. Idêntica reclamação apresentaram os procuradores de Lisboa às cortes de 1439, visando retirar as judiarias das melhores zonas da cidade, cf. VENTURA, Margarida Garcez – Contributo para uma leitura social do espaço na Lisboa quatrocentista…, p. 229-240.


[78] A propósito das vicissitudes por que passou a construção da muralha quatrocentista da Viseu, cf. SARAIVA, Anísio Miguel de Sousa – A cidade de Viseu no rasto da guerra…


[79] D. Afonso V determina que os mantimentos vão primeiro à praça e depois de aí estarem por uma hora sejam vendidos pela vila a quem quiserem: 1460 (8 de Dezembro, Évora) ANTT – Leitura Nova, Beira, Liv. 2, fls. 41v-42v; cf. TAVARES, Maria José – Os judeus em Portugal no século XV, vol. 1, p. 24.


[80] ANTT – Chancelaria de D. Afonso V, L. 28, fl. 51. Este capítulo de cortes encontra-se publicado por BARROS, Henrique da Gama – Comunas de Judeus e comunas de mouros em Portugal em tempos passados. Revista Lusitana. 34 (1936) 259-260; e referenciado por TAVARES, Maria José – Os judeus em Portugal no século XV, vol. 1, p. 73, nota 297. Sobre o fechamento do perímetro dos bairros judaicos cf. TRINDADE, Luísa – Urbanismo na composição de Portugal…, p. 627-629.


[81] 1455 (20 de Outubro) e 1457 (25 de Março) ADVIS – Pergaminhos, m. 37, n. 4; m. 33, n. 7 e m. 47, n. 18.


[82] Cf. MORENO, Humberto Baquero – O assalto à Judiaria Grande de Lisboa em Dezembro de 1449. In Marginalidade e conflitos sociais …, p. 89-132; e TAVARES, Maria José Ferro – Revoltas contra os judeus no Portugal medieval. Revista de História das Ideias. 6 (1984) 165-167.


[83] Cf. MORENO, Humberto Baquero – Movimentos sociais antijudaicos em Portugal no século XV…,

p. 84-87; idem – Reflexos na cidade do Porto da entrada dos conversos em Portugal nos fins do século XV. In Marginalidade e conflitos sociais …, p. 133-160; e TAVARES, Maria José Ferro – Os judeus em Portugal no século XV, vol. 1, p. 421-431.


[84] Cf. MAGALHÃES, Joaquim Romero de – Os cristãos-novos: da integração à segregação. In História de Portugal. Dir. José Mattoso, vol. 3. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 1993, p. 475-476; TAVARES, Maria José Ferro – Os judeus em Portugal no século XV, vol. 1, p. 431-447.


[85] Entre 1498 e 1511, encontramos em vários contratos do cabido da Sé de Viseu a referência à Rua Nova como correspondente à antiga Judiaria, cf. ADVIS – Pergaminhos, m. 00, n. 4, 58, 161, 185, 328; m. 33, n. 8, 26; e m. 35, n. 27. Sobre a inserção da Rua Nova na malha urbana da Viseu dos inícios do século XVI e a reocupação dos bairros judaicos após o decreto da expulsão, cf. CASTILHO, Liliana Andrade – O centro histórico de Viseu…, p. 330; e ANDRADE, Amélia Aguiar – O desaparecimento espacial das judiarias nos núcleos urbanos portugueses …, p. 153-154.


[86] 1499 (13 de Novembro, Viseu) ADVIS – Pergaminhos, m. 33, n. 26. Sobre os cristãos-novos em Viseu, cf. CORDEIRO, Maria Teresa Gomes – Adonai nos cárceres da Inquisição – os cristãos-novos de Viseu quinhentista. Viseu: Arqueohoje/Projecto Património, 2010; idem – Cristãos-novos, a raia e o êxodo para Castela: a entrada da Inquisição em Viseu (1637). Guarda: Centro de Estudos Ibéricos, 2007.






PALAVRAS-CHAVE

História Urbana, Viseu, Judeus, Catedral, Idade Média.






COMO CITAR ESTE ARTIGO


Referência electrónica:

SARAIVA, Anísio Miguel de Sousa – “Metamorfoses da cidade medieval. A coexistência entre a comunidade judaica e a catedral de Viseu”. Medievalista [Em linha]. Nº11, (Janeiro - Junho 2012). [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em
http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA11\anisio1106.html. ISSN 1646-740X.


fonte:http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA11/anisio1106.html

Pensamento budista






"Tudo o que somos é o resultado do que temos pensado.


Se uma pessoa fala ou age com pensamento ruim, a dor a segue, tal como a roda segue a pata do boi que puxa a carroça...
Se uma pessoa fala ou age com um pensamento puro, a felicidade a segue, como uma sombra que nunca a abandona.
" (Pensamento budista)



quinta-feira, 26 de abril de 2012

Orgulho da cor

EM DIÁLOGO COM OUTROS PAÍSES, O MOVIMENTO NEGRO BRASILEIRO CRESCEU NOS ANOS 1970 SOB VIGILÂNCIA DA DITADURA, PARA SE AFIRMAR NA DEMOCRACIA


  • No Dia da Consciência Negra, a RHBN Online destacou um artigo dos pesquisadores Amilcar Araújo Pereira e Verena Alberti, publicado em setembro de 2008, que contra a história do movimento negro brasileiro em plena ditadura militar. O levante encorpou diante do assassinato do jovem negro Robson Silveira da Luz acusado de roubar frutas numa feira, e na discriminação sofrida por quatro meninos negros impedidos de treinar vôlei no time infantil do Clube de Regatas Tietê.
    As lutas, porém, começaram desde a abolição, como explica o artigo “Consciência de cor”, publicado em setembro de 2007. Em 1903, por exemplo, nascia o jornal “O Baluarte”, anunciado como “órgão oficial do Centro Literário dos Homens de Cor e dedicado à defesa da classe”. Era comum jornais dirigidos por negros denunciando o preconceito, defendendo o bom comportamento e apostando na formação de uma consciência racial
    Mas, como a luta continua, confira a programação culturalsobre consciência racial que acontece até o fim do mês em várias capitais do país.

     


     

    Por Verena Alberti e Amilcar Araujo Pereira
    O Serviço Nacional de Informações (SNI), criado em 13 de junho de 1964 com a finalidade de coordenar as atividades de informação e contra-informação em todo o país, produziu inúmeros relatórios sobre assuntos julgados pertinentes à Segurança Nacional durante o regime militar. Num deles, de 14 de julho de 1978, podemos encontrar um relato sobre a manifestação, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, daquilo que se tornaria mais adiante o Movimento Negro Unificado (MNU), uma das entidades do movimento negro surgidas no Brasil na década de 1970.

    Realizou-se em São Paulo, no dia 7 julho de 1978, na área fronteiriça ao Teatro Municipal, junto ao Viaduto do Chá, uma concentração organizada pelo autodenominado “Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial”, integrado por vários grupos, cujos objetivos principais anunciados são: denunciar, permanentemente, todo tipo de racismo e organizar a comunidade negra. Embora não seja, ainda, um “movimento de massa”, os dados disponíveis caracterizam a existência de uma campanha para estimular antagonismos raciais no País e que, paralelamente, revela tendências ideológicas de esquerda. Convém assinalar que a presença no Brasil de Abdias do Nascimento, professor em Nova Iorque, conhecido racista negro, ligado aos movimentos de libertação na África, contribuiu, por certo, para a instalação do já citado “Movimento Unificado”.

    Esse documento, que se encontra no Arquivo Ernesto Geisel, depositado no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas, não é o único produzido pelos órgãos de informação da época sobre a atividade de militantes e organizações do movimento negro. Mas ele nos ajuda a situar a atuação desse movimento social na História do Brasil, mais especificamente no contexto da abertura política, iniciada em 1974. Desde o início da década de 1970, é possível registrar a formação de entidades que, como diz o relatório do SNI, buscavam denunciar o racismo e organizar a comunidade negra.


    Origem na morte de jovem
    Por exemplo, o Grupo Palmares, criado em Porto Alegre em 1971; o Centro de Estudos e Arte Negra (Cecan), aberto em São Paulo em 1972; a Sociedade de Intercâmbio Brasil-África (Sinba), inaugurada no Rio de Janeiro em 1974, e o Bloco Afro Ilê Aiyê, fundado em Salvador também em 1974. Militantes de algumas dessas e de outras entidades articularam-se em 1978 para a realização do ato público ao qual o documento do SNI se refere. Sua motivação teve origem no assassinato do jovem negro Robson Silveira da Luz, no distrito policial de Guaianazes, para onde tinha sido levado preso, acusado de roubar frutas numa feira, e na discriminação sofrida por quatro meninos negros impedidos de treinar vôlei no time infantil do Clube de Regatas Tietê.
    A manifestação contou com a presença de Abdias do Nascimento, militante de longa data, que em 1968 havia se exilado nos Estados Unidos, onde foi professor em várias universidades. O fato de ser apontado como “conhecido racista negro” pelo relatório do SNI é um dado interessante e pode ser explicado pela forte atuação do movimento negro, naquela época, no sentido da denúncia do chamado “mito da democracia racial”, isto é, da ideia de que não haveria racismo no Brasil. Como Abdias do Nascimento, de acordo com o SNI, denunciava um racismo “inexistente”, ele mesmo seria racista. Outro documento, de janeiro do mesmo ano de 1978, advertia: “Esses movimentos, caso continuem a crescer e se radicalizar, poderão vir a originar conflitos raciais”.

    ‘Imprensa negra paulista’
    As organizações formadas na década de 1970 não foram as primeiras na história do país. Logo depois da abolição, no final do século XIX, já circulavam jornais voltados para as populações negras, como o Treze de Maio, do Rio de Janeiro (1888), e O Exemplo, de Porto Alegre (1892). Em São Paulo, a chamada “imprensa negra paulista” denunciava, nos anos 1920, a discriminação racial. Dela surgiram alguns dos fundadores da Frente Negra Brasileira, em 1931, que chegou a se transformar em partido político em 1936, mas logo foi extinta, como os demais partidos, pelo Estado Novo no ano seguinte. Na década de 1940 foram fundadas várias entidades, como a União dos Homens de Cor e o Teatro Experimental do Negro.
    Muitos dos documentos desse período mostram que não era rara a circulação de referenciais e informações de fora do Brasil, principalmente da África e dos Estados Unidos. O jornal O Clarim d’Alvorada, publicado de 1924 a 1932 em São Paulo, abrigava uma seção intitulada “O mundo negro”, na qual eram publicadas traduções de artigos do jamaicano Marcus Garvey (1887-1940), defensor do pan-africanismo. O jornal Quilombo, fundado por Abdias do Nascimento em 1948, reproduzia com freqüência artigos da revista Présence Africaine, publicada em Paris e Dacar a partir de 1947, sob a direção do senegalês Alioune Diop. Nos anos 1960, esse intercâmbio se intensificou diante das lutas de libertação das colônias africanas e da mobilização pelos direitos civis nos Estados Unidos. Como se viu no documento reproduzido acima, Abdias do Nascimento oferecia perigo, segundo os investigadores do SNI, porque estava “ligado aos movimentos de libertação na África”.

    As idéias que circulavam entre os militantes nos anos 1970 e 1980 e suas formas de ação – como o ato público realizado em São Paulo em 1978 – foram objeto da pesquisa “História do movimento negro no Brasil: constituição de acervo de entrevistas de história oral”, que desenvolvemos no CPDOC entre 2003 e 2007. A metodologia da história oral, que consiste na realização de entrevistas gravadas com testemunhos do passado, permite o registro de narrativas de experiência pessoal e o conhecimento de formas de articulação e de visões de mundo de pessoas e grupos.

    Antenados com a luta racial no exterior
    Essas entrevistas nos permitiram perceber que, além dos poetas de língua francesa, que continuaram a ser lidos e discutidos, e da luta contra o apartheid, regime de segregação racial que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1992, outro assunto que mobilizava as atenções era a independência dos países africanos de colonização portuguesa – Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe –, ocorrida entre 1974 e 1975, poucos anos antes do ato público nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo. É recorrente, por exemplo, a menção aos Poemas de Angola, de Agostinho Neto, fundador do Movimento Popular de Libertação de Angola e primeiro presidente do país, em 1975.
    Muitas vezes, essas leituras são lembradas como cruciais para a conscientização do entrevistado e para sua opção pela militância. A descoberta de si mesmo como negro se mesclava a uma tomada de posição política, levando a atitudes que, nos dias de hoje, já não têm o mesmo peso. O simples ato de comprar uma revista, por exemplo, era decisivo. Foi o que nos contou Carlos Alberto Medeiros, militante do movimento negro no Rio de Janeiro desde a década de 1970:

    Eu trabalhava no Jornal do Brasil, que era na Avenida Rio Branco 110. Eu passava lá e via revistas estrangeiras nas bancas de jornal. E havia uma revista da qual eu já ouvira falar no Rio Grande do Sul, a revista Ebony. Eu passava, via a revista, tinha até alguma curiosidade. Mas até para comprar a revista a primeira vez eu tive que romper com alguma coisa. Porque comprar uma revista de negros tinha um significado de identificação. Eu já tinha um domínio do inglês que dava para ler. Até que um dia eu comprei. E era final da segunda metade de 1969, na época em que estava aquela coisa do black is beautiful, do cabelo afro. E aquilo foi quase um amor à primeira vista. Bati o olho e falei: “É isso que falta.”

    Publicações do gênero influenciavam a formação e a disseminação de uma consciência da negritude. Magno Cruz, importante referência do movimento no Maranhão desde o início dos anos 1980, relata como foi atingido por essa estratégia inicial. Em 1979, ele chegou a assinar a ata de criação do Centro de Cultura Negra (CCN) local, a convite de sua fundadora, Mundinha Araújo. Mas levou certo tempo até atuar como militante:

    Eu sou fundador fictício, porque não fui fundador orgânico que estava lá no início, nas primeiras reuniões. Qual era a minha resistência em me engajar no trabalho do CCN? Eu não me considerava negro. Inclusive o meu apelido na faculdade era Moreno. E eu era crente que eu era moreno. Pensava: como ia participar de uma entidade do movimento negro se eu não me considerava negro? Mas, com os seminários e com as palestras, que houve muito, eu fui mudando. A Mundinha deu o encaminhamento que eu acho que foi o melhor possível, porque foi de formação. As primeiras reuniões eram reuniões de estudo. Era uma sala, talvez um pouquinho maior do que essa aqui; quando iam mais de 30 pessoas, tinha que ficar gente do lado de fora. E era texto para a gente ler, jornal para a gente ler, para discutir, livros... Ninguém sabia nada sobre a história do negro. E aí, com esses cursos, esses seminários de que eu fui participando, eu fui percebendo que era negro.

    Postura afro
    A essa estratégia de mobilização somavam-se várias outras, como a adoção do penteado afro, a produção de audiovisuais, jornais e panfletos, a difusão de informações em feiras e locais públicos, a montagem de peças de teatro e a organização de grupos de dança e de blocos afro. Encontros estaduais e regionais estimulavam o crescimento do movimento negro. Em agosto de 1980, ocorreu o I Encontro Memorial Zumbi, em Alagoas, com a presença de líderes nacionais, como Abdias do Nascimento e a antropóloga Lélia Gonzalez (1935-1994). O evento impulsionou a realização dos Encontros de Negros do Norte e Nordeste, iniciados no ano seguinte. A partir de meados da década de 1980, registram-se outros encontros em diferentes estados, além dos Encontros de Negros do Sul-Sudeste e dos Encontros Estaduais e Nacionais de Mulheres Negras. O I Encontro Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas, realizado em 1995, deu origem à Comissão Nacional de Articulação das Comunidades Rurais Quilombolas, criada em 1996.
    A metodologia da história oral permite conhecer não só como essas iniciativas ocorreram na prática, mas também de que modo, a partir delas, as reivindicações do movimento negro acabaram sendo trazidas pelos militantes para a esfera pública. Trata-se, pois, de uma ferramenta importante para o estudo da história política. Hoje existem diversas secretarias voltadas para a promoção da igualdade racial, no governo federal e em governos estaduais e municipais, e novos artigos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB de 1996, que tornam obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas do país e incluem o dia 20 de novembro no calendário escolar como “Dia Nacional da Consciência Negra”.
    Aliás, o primeiro ato evocativo de celebração do 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, foi realizado pelo Grupo Palmares, de Porto Alegre, em 1971. Passados sete anos, a segunda assembléia nacional do MNU, realizada em Salvador em novembro de 1978, declarou a data o “Dia Nacional da Consciência Negra”, que hoje é feriado em mais de duzentos municípios do país. Este é um exemplo bastante evidente do trabalho de disputa pela memória nacional, que culminou com a inscrição do nome de Zumbi no livro dos heróis da pátria, em 20 de novembro de 1996.

    Movimento se espalha pelo país
    Outra possibilidade aberta pela realização de pesquisas de história oral é o acesso a experiências e interpretações do passado que não são necessariamente aquelas consagradas por uma “história nacional”. Esse pluralismo é facilmente compreendido quando percebemos que as entrevistas nos apresentam novas periodizações. Do ponto de vista de nossos entrevistados, a repercussão nacional do ato público nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em 1978, possibilitou a criação de muitas organizações em diferentes estados do país e acabou sendo responsável pela difusão da noção de “movimento negro” como designação genérica para as diversas entidades e ações a partir daquele momento.
    O marco seguinte foi o ano de 1988, por duas razões: comemorava-se o centenário da Abolição, o que motivou uma série de ações de protesto que denunciavam as condições de vida dos negros no país, e elaborava-se uma nova Constituição. Duas importantes reivindicações do movimento viraram texto constitucional – a criminalização do racismo (Artigo 5) e o reconhecimento da propriedade das terras de remanescentes de quilombos (Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias). Os anos de 1995 e 2001 são os dois momentos seguintes. Em 1995 foi realizada em Brasília uma marcha em homenagem aos trezentos anos da morte de Zumbi dos Palmares. Era o primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso, que criou então um Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da População Negra, dando a partida nas primeiras iniciativas de ação afirmativa na administração pública federal. E 2001 foi o ano da III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, realizada na cidade de Durban, na África do Sul, que mobilizou o governo e as entidades do movimento negro em sua preparação e resultou em novos acontecimentos, como a reserva de vagas para negros em algumas universidades do país e novos compromissos assumidos pelo Estado em âmbito internacional.
    O estudo da História se enriquece quando conhecemos novas periodizações, atuações e experiências, mas isso não significa que podemos esquecer os marcos nacionais. A história do movimento negro no Brasil não deve ser entendida como “descolada” da história contemporânea, tanto do Brasil como do mundo. Os marcos aqui registrados fazem sentido para o movimento negro e também para a história nacional, pois se relacionam com conjunturas como a abertura política, o centenário da Abolição, a Constituinte e o governo Fernando Henrique Cardoso, entre outros. Eles tiram sentido desses contextos e emprestam-lhes novos sentidos. Esta é a riqueza da história oral.
    E convém não esquecer que, no próprio universo pesquisado, as trajetórias e opiniões nunca são unânimes. Em nossa pesquisa, ouvimos pessoas de diferentes regiões e muitas vezes de posições divergentes, o que permite perceber a pluralidade de experiências e avaliações entre os próprios militantes. Mas não há dúvida de que todos tiveram por objetivo o combate ao racismo e a luta pela melhoria das condições de vida das populações negras.


    Verena Alberti é pesquisadora do Programa de História Oral do CPDOC da Fundação Getulio Vargas e professora de História da Escola Alemã Corcovado, no Rio de Janeiro.
    Amilcar Araujo Pereira é doutorando em História na Universidade Federal Fluminense (UFF) e bolsista do CNPq. Ambos são organizadores do livro Histórias do movimento negro no Brasil (Rio de Janeiro: Pallas, 2007).

    Saiba Mais - Livros:
    HANCHARD, Michael. Orfeu e o poder: o movimento negro no Rio de Janeiro e em São Paulo (1945-1988). Rio de Janeiro: EdUerj, 2001.
    LEITE, José Correia. ...E disse o velho militante José Correia Leite: depoimentos e artigos. Organização e textos: Cuti (Luiz Silva). São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1992.
    PEREIRA, Amauri Mendes. Trajetória e perspectivas do movimento negro brasileiro. Rio de Janeiro: Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, 2005.
    SANTOS, Joel Rufino dos. “A luta organizada contra o racismo”. In: Barbosa, Wilson do Nascimento (org). Atrás do muro da noite; dinâmica das culturas afro-brasileiras. Brasília: Ministério da Cultura, Fundação Cultural Palmares, 1994.